terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Quando tudo deixa de fazer sentido…


…entregamo-nos à dor. Ansiamos que termine tudo. Ansiamos que termine a vida e oramos, sem saber bem a quê ou a quem, que tudo mude, ou que simplesmente deixe de interessar.


Quando tudo deixa de ser desejado, quando tudo nos é indiferente, se estamos ou deixamos de estar, quando o amanhã não nos reserva nada de bom, pensamos… QUERO MORRER!


Dificilmente deixamos de ter empatia com este tipo de sofrimento, pois de uma maneira ou de outra, em certos momentos da nossa vida pensamos o mesmo. Diferente é quando a nossa vida está já a terminar, resultado de alguma doença implacável. Aí a primeira coisa que nos vem à cabeça é: “já está a morrer por isso aproveita a vida!”


Palavras fáceis de dizer, mas que tantas vezes parecem não fazer eco, nem nas nossas mentes, nem nas dos demais. Como poderemos nós saber o que outro sente realmente? Como poderemos nós demonstrar que a vida merece ser vivida? Que sabemos nós do sofrimento “puro e duro” destes doentes? Aquilo que poderemos meramente ansiar são vislumbres de dor… vislumbres estes que o doente pode optar não nos mostrar… protegem-nos. Protegem-se!


Que sentido afinal para uma vida tão diferente daquela desejada? Com a guilhotina pendente sobre o pescoço, como poderemos encontrar sentido nos pequenos momentos? Não basta apenas desejar ser feliz! O esforço necessário para qualquer mudança poderá ser tão grande que um pequeno corpo com a alma amachucada poderá não ser capaz de realizar.


Que fazer? Deixa-te ir. Deixa-te levar pelo tempo e pelo sonho para a Terra do Nunca onde jamais seremos mortais!

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Sondagem: As pessoas têm conhecimento sobre o que são cuidados paliativos?


Surpreendentemente, ou talvez não, os resultados da sondagem demonstram que as pessoas, hoje em dia, ainda não têm conhecimento sobre o que são cuidados paliativos.


Assim, poderemos inquirir-nos sobre os factores por detrás desta realidade. Assistimos cada vez mais a reportagens na TV acerca de doentes em fase terminal (maioritariamente oncológicos e neurológicos), sobretudo no que diz respeito à eutanásia e suicídio assistido. Ainda esta semana, na passada segunda feira, tal ocorreu.


Será que o debate social acerca deste tema está a ser enviesado? Falamos nas soluções mais drásticas, tal como a eutanásia, mas pouco se fala acerca do tipo de cuidados que pode evitar que esta questão se coloque – os cuidados paliativos.


A RNCC está a funcionar. Onde estão os cuidados paliativos? Existem de facto vários profissionais de saúde a trabalhar nesta área, e várias equipas em início de funcionamento. No entanto, a população continua sem saber se pode ou não dispor deste recurso, ou então para que serve. Muitas pessoas morrem no Hospital, ou em casa, sem apoio, simplesmente por falta de conhecimento da existência destas equipas, ou de profissionais, que prestem acções paliativas.
Como foi dito em outro local: Todos fazem, todos sabem… mas não se vê nada.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

“Isto é mesmo uma questão de vida ou de morte:” Preocupações Existenciais no Doente Oncológico


Paulo Simões, 2008, Dissertação de Mestrado em Cuidados Paliativos



O estudo elaborado por este autor visava identificar as preocupações de âmbito existencial que surgiam em doentes em fase avançada da doença, neste caso oncológica.


Os resultados permitiram verificar que, as preocupações existenciais surgiram na totalidade da amostra (22 pessoas, das quais 5 do sexo masculino), emergindo de forma mais intensa na fase da doença, sendo uma das principais fontes de sofrimento dos doentes. Essas preocupações relacionam-se com os seguintes temas:




  • Interrogações sobre o sentido da própria vida e da vida em geral;



  • Consciência da inevitabilidade da morte;



  • Medo da morte e desejo de continuar a viver;



  • Necessidade de posse de uma vida livre, que implica necessariamente responsabilidade;



  • Dicotomia entre a necessidade de proximidade/pertença e de isolamento perante a separação do mundo e das pessoas significativas.


O autor verificou também que o bem-estar existencial tem um efeito protector perante o desespero em fim de vida e, que os conflitos identificados necessitam de ser trabalhados pela equipa de cuidados paliativos, de modo a serem evitados comportamentos disfuncionais ou desajustados e uma vida desprovida de sentido.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Necessidades dos doentes paliativos - sondagem


Embora em número limitado, os participantes da sondagem de Julho (80%) afirmaram que as necessidades dos doentes paliativos não estão a ser satisfeitas.

Isto levanta-nos algumas questões:
Que necessidades são essas?
Esta avaliação que fazemos centra-se nas necessidades que nós julgamos que os doentes têm ou, centra-se nas necessidades reais e assim descritas pelos doentes?
Porque motivo não estão estas necessidades satisfeitas?

Vivemos um pouco no reino do faz de conta e do “nós também fazemos”, embora na prática nada se realize. Já a Dra. Isabel Neto, na mensagem de abertura da página da Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos, salienta que desde 2006 que o Ministério da Saúde considera a área dos cuidados paliativos como sendo prioritária, embora as acções concretas e bem fundamentadas para a concretização da aplicação do Plano Nacional de Saúde nesta área sejam poucas ou nenhumas.

Está implementada a Rede Nacional de Cuidados Continuados. Então onde estão os cuidados e os profissionais de saúde com formação específica e motivação para ajudarem os doentes paliativos numa das fases mais vulneráveis das suas vidas? Não é com beijinhos e abraços que se resolvem os problemas!

De uma vez por todas que sejam dadas as condições necessárias àqueles profissionais de saúde que de facto querem trabalhar nesta área para que o possam fazer!!!

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Há sempre tempo...


Barreiras a um eficaz controlo da dor


Relacionadas com os profissionais de saúde


o Ausência de conhecimento acerca dos procedimentos para o controlo da dor;

o Confusão entre tolerância e dependência;


o Incapacidade de reconhecer a multi-dimensionalidade da dor.


Relacionadas com os doentes e suas famílias


o Medos relacionados com a toma de opióides;


o Esconder sintomas devido ao estoicismo;


o Medo de que o opióide lhe possa encurtar a vida;


Relacionadas com o sistema de saúde


o Dificultar o acesso aos analgésicos, opióides e formulações opióides;


o Falta de políticas institucionais para aplicação e registo da avaliação da dor.

Ideias erradas acerca da morfina


Os opióides são fármacos de uso restrito;


O uso de opióides leva à dependência e ao abuso de substâncias;


A administração de opióides tem efeitos secundários, nomeadamente euforia e sedação que, secundariamente, podem induzir dependência;


A morfina só deve ser prescrita na eminência da morte;


Se não conseguimos identificar causa para a dor, ela não existe;


Quanto mais importância se der à dor, mais intensa se torna;


Viver sob morfina é pior do que a morte;


A prescrição de morfina em fase precoce impede tratamentos posteriores;


A morfina não alivia a dor – torna-a suportável;


A morfina é um analgésico pouco potente quando administrado por via oral;


A morfina tem efeitos adversos perigosos;


A necessidade de aumentar a dose significa dependência;


A tolerância é sinónimo de dependência;


Os opióides não devem ser associados a outros analgésicos;



Maria Fragoso (2002), Mitos da Morfina.

Para Ler e Ver...

  • Amara, Como cuidar dos nossos
  • Marie de Hennezel, Arte de Morrer
  • Marie de Hennezel, Diálogos com a Morte
  • Mitch Albom, As Terças com Morrie
  • Morrie Schwartz, Amar e viver: Lições de um mestre inesquecível
  • Tsering Paldrom, Helena Atkin e Isabel Neto, A dignidade e o sentido da vida: reflexões sobre a nossa existência